segunda-feira, 26 de abril de 2010

Roda de Leitura (A saga continua...)

Quando apresentei na "Roda de Leitura" o livro lido por mim ("O itinerário de Pasárgada", de Manuel Bandeira) muitos trechos foram selecionados para futuras postagens... Mas, além do trecho exposto na postagem anterior, tem mais um que gostaria de compartilhar com vocês. Já havia lido na classe, mas acho importante colocá-lo no blog, pois justamente explicita o modo de Manuel Bandeira escrever seus poemas nos ajundando a pensar e refletir sobre o nosso próprio modo de escrever.

"Não faço poesia quando quero e sim quando ela, poesia, quer. E ela quer às vezes em horas impossíveis: no meio da noite, ou quando estou em cima da hora para ir dar uma aula na Faculdade de Filosofia ou sair para um jantar de cerimônia... "A última canção do beco" nasceu num momento destes, só que o jantar não era de cerimônia. Na véspera de me mudar da Rua Morais e Vale, às seis e tanto da tarde, tinha eu acabado de arrumar os meus troços e caíra exausto na cama. Exausto da arrumação e um pouco também da emoção de deixar aquele ambiente, onde vivera nove anos. De repente a emoção se ritmou em redondilhas, escrevi a primeira estrofe, mas era hora de vestir-me para sair, vesti-me com os versos surdindo na cabeça, desci à rua, no beco das Carmelitas me lembrei de Raul de Leoni, e os versos vindo sempre, e eu com medo de esquecê-los, tomei um bonde, saquei do bolso um pedaço de papel e um lápis, fui tomando as minhas notas numa estenografia improvisada, se não quando lá se quebrou a ponta do lápis, os versos não paravam... Chegando ao meu destino, pedi um lápis e escrevi o que ainda guardava de cor... De volta a casa, bati os versos na máquina e fiquei espantadíssimo ao verificar que o poema se compusera, à minha revelia, em sete estrofes de sete versos de sete sílabas." (BANDEIRA, 1984, págs. 118 e 119)*

Diante de tantos autores lidos por nós todas durante as aulas, deste trecho de Manuel Bandeira e de nossas experiências de vida, pude perceber que o ato de escrever é tão individual quanto o nosso modo de ser, o que eu quero dizer com isso, é que ao escrever não tomamos um livro de receitas e fazemos nossos textos seguindo passos comuns a todas as pessoas. O interessante é que cada ser humano tem um jeito próprio de escrever e por isso, possuímos tantas produções ricas e diversas em pensamentos, estilos e formas; aquelas que combinam com a gente e aquelas que não combinam. Acredito que lendo e discutindo este diferentes autores, além de ampliar nosso conhecimento literário, estamos tendo a possibilidade de conhecer diferentes modos de escrever, alguns mais metódicos, outros mais livres, outros ainda um pouco complexos, uns mais interessantes, outros menos interessantes, porém todos contribuindo com a nossa formação de "escritores".

                                                                      *BANDEIRA, M. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

Roda de Leitura (continuação...)

Bem, como eu já tinha dito na postagem anterior como gostei de saber sobre a história do poema "Vou-me embora p'ra Pasárgada" e não tive a oportunidade de ler durante a roda de leitura, então colocarei na íntegra o excerto do livro de Manuel que fala de toda esta história:

 ' "Vou-me embora p'ra Pasárgada" foi o poema de mais longa gestação em toda a minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgadaquando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. Estava certo de ter sido em Xenofonte, mas já vasculhei duas ou três vezes a Ciropédia e não encontrei a passagem. O douto frei Damião Berge informou-me que Estrabão e Arriano, autores que nunca li, falam na famosa cidade fundado por Ciro, o antigo, no local preciso em que vencera a Astíages. Ficava a sueste de Persépolis. Esse nome de Pasárgada, que significa "campo dos persas" ou "tesouro dos persas", suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias, como o de "L'invitation au voyage" de Baudelaire. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda sensação de tudo o que eu não tinha feito na minah vida por motivo da doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: "Vou-me embora p'ra Pasárgada!" Senti na redondilha a primeira célula de um poema, e tentei realizá-lo, mas fracassei. Já nesse tempo eu não forçava a mão. abondonei a ideia. Alguns anos depois, em idênticas circunstâncias de desalento e tédio, me ocorreu o mesmo desbafo de evasão da "vida besta". Desta vez o poema saiu sem esforço como se já estivesse pronto dentro de mim. Gosto desse poema também porque parece que nele soube transmitir a tantas outras pessoas a visão e promessa da minha adolescência - essa Pasárgada onde podemos viver pelo sonho que a vida madrasta não nos quis dar. Não sou arquiteto, como meu pai desejava, não fiz nenhuma casa, mas reconstruí e "não como forma imperfeita neste mundo de aparências", uma cidade ilustre, que hoje não é mais a Pasárgada de Ciro, e sim a "minha" Pasárgada.' (BANDEIRA, 1984, págs. 97 e 98)*

O que mais me impressionou neste excerto, no qual Manuel Bandeira fala sobre o seu poema, além da simplicidade e delicadeza, foi pensar sobre como temos o poder de inventar e construir nosso mundo de fantasias, ilusões, desejos e sonhos através das palavras, como estas nos possibilitam entrar em contato com tudo aquilo que está no nosso imaginário e que por muitas vezes nos faz felizes e realizados como seres humanos. Por meio das palavras nós temos o poder de criar e falar sobre tudo o que queremos por mais estranho que seja e fazer com que as coisas sejam como a gente quer... Foi nisso que pensei quando li este trecho! E você o que pensou?

                                                   * Trecho extraído do livro: BANDEIRA, M. Itinerário de Pasárgada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Roda de Leitura

Não sei se estou me antecipando, mas esta semana não sei o que exatamente devo escrever... parece-me que sempre faltam ideias, palavras... mas tenho que escrever, não é mesmo? Digo que não sei se estou me antecipando, pois a única coisa que me vem a cabeça é o livro que estou lendo para a "roda de leitura" de quinta-feira. Fiquem tranquilas, pois não contarei o conteúdo do livro que estou lendo, que por sinal não é segredo para ninguém ("Itinerário de Pasárgada" de Manuel Bandeira), mas quero deixar registrado nesse blog e compartilhar com vocês o lindo poema escrito por este autor que possui o nome parecido com o livro: 

Vou-me Embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei.

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive.


E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada.


Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar.


E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
                                          Texto extraído do livro "Bandeira a Vida Inteira", Editora Alumbramento – Rio de Janeiro, 1986, pág. 90

Por que escolhi compartilhar este poema com vocês? Porque ao ler o livro descobri o motivo pelo qual Manuel Bandeira utilizou o nome da cidade chamada Pasárgada, batizando assim seu poema e depois seu livro. Na verdade, fiquei encantada pela história deste poema (como por todas as histórias que Manoel conta em seu livro) que contarei, se possível, na quinta-feira. Então, vocês terão que esperar um pouquinho para saber mais detalhes... por enquanto fiquem com o poema, que ao meu ver já está de bom tamanho.
Bem, enfim, não sei se era para escrever sobre isto, mas tive vontade e então escrevi...